Um grande frisson é causado quando um novo filme de Pedro Almodóvar está para ser lançado. Seus fãs esperam uma nova obra-prima digna de “Tudo Sobre Minha Mãe” ou “Fale Com Ela”, já os detratores, que acham o cineasta espanhol colorido e exagerado demais, fazem muxoxo. Bem, eu confesso que não acompanhei notícia alguma a respeito do recém lançado na Europa “Os Amantes Passageiros”, fui ter conhecimento de sua existência esta semana, mas como admiradora do trabalho do diretor, acredito que seu projeto seja, no mínimo, interessante.

Tripulação com novas caras e figurinhas carimbadas como Javier Cámara, Lola Dueñas e Cecilia Roth

Pedro Almodóvar é uma daquelas pessoas com talento nato, oriundo de uma família simples de uma pequena comunidade da Espanha. Não frequentou faculdade de cinema alguma, seus conhecimentos vêm de suas experiências como ator e suas performances. Antes de ser cineasta, foi funcionário da companhia telefônica estatal, escreveu quadrinhos e fanzines, foi vocalista de bandas de rock, onde tocava travestido, em suma, um exímio conhecedor do underground. Almodóvar juntava o salário para comprar equipamentos e pôr em prática as suas várias ideias. Antes de se jogar no circuito comercial, fez diversos curtas autorais para só então traçar novos caminhos.


Esse mundo marginalizado e, por vezes, fétido está presente em suas obras: são travestis, gays, prostitutas, viciados e assassinos estampados como protagonistas de suas películas. Bebendo da fonte das comédias melodramáticas mexicanas dos anos cinquenta, o diretor passou por diferentes fases em sua carreira até chegar a maturidade em 1999, quando venceu o Oscar de filme estrangeiro por “Tudo Sobre Minha Mãe” e  também roteiro original, em 2002, por “Fale com Ela”.

Suas primeira fase, madrilenha, é marcada por obras sarcásticas, indigestas, comédias exageradas. Em sua segunda fase, que tem início com o filme “A Flor do Meu Segredo” (1995), Almodóvar buscou delinear melhor seus personagens, fazendo-os mais dramáticos e só aí veio a consagração internacional. E por fim, sua terceira fase, a que eu particularmente mais gosto, onde todos os elementos almodovianos se encontram equilibrados e maduros. Esta data desde “Carne Trêmula” (1997) até hoje, e neste período ele produziu o que eu considero suas obras-primas: “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999), “Fale Com Ela” (2002) e “Volver” (2006).

Los Amantes Pasarejos, título original, trata de diversas tramas paralelas que se interligam por meio de uma viagem aérea da companhia fictícia, Península, que sai da Espanha com destino ao México. Seus tripulantes acreditam estar vivendo suas últimas horas de vida e começam a fazer confissões inesperadas sobre seus pecados e vontades, tudo isso ambientado nos anos 80. Em qualquer filme hollywoodiano, um enredo como esse teria tons de “ataque terrorista” mas, em se tratando de Almodóvar, espera-se, além das suas cores habituais, sexo, drogas, risos, álcool e um elenco de primeira. Após filmes de uma intensa carga dramática como os excelentes “A Pele Que Habito” (2011) e “Abraços Partidos” (2009), o diretor quis resgatar seu lado cômico.

Almodóvar ao lado de seus musos: Penélope Cruz e Antonio Bandeiras

Sinto informar aos fãs de Penélope Cruz que tanto ela quanto Antonio Bandeira e Paz Vega, três atores espanhóis de projeção internacional, serão meros coadjuvantes na película. Já outros antigos parceiros do diretor estão de volta nesta comédia pelos ares, caso do ator Javier Cámara, que atuou em “Fale com Ela” (2002) e “Má Educação” (2004), e agora veste a roupa de comissário de bordo; Lola Dueñas que trabalhou com o diretor em “Fale Com Ela”, “Volver” (2006)  e “Abraços Partidos” (2009) está presente na tripulação. Quem também está de volta é a argentina Cecília Roth, protagonista do primeiro filme do diretor, “Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão” (1980) e “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999).

Uma curiosidade sobre as gravações: o filme foi rodado no aeroporto da cidade natal do cineasta, na província de Cuidad Real, próxima a Madri, entre julho e setembro de 2012. Na estreia espanhola, o diretor fez questão de mandar uma mensagem aos seus conterrâneos da pequena comunidade de Calzada de Calatrava, localizada na província.

Raúl Arévalo, Carlos Areces e Javier Cámara são os comissários de bordo

Devo admitir que, pelo trailer, não me empolguei nem um pouco com o filme, embora seja uma admiradora do trabalho do diretor espanhol. Compreendo que quando um artista chega ao nível que Almodóvar chegou, em que seu nome é sinônimo de um gênero cinematográfico e sua filmografia é de dar inveja a qualquer um, voltar a fazer comédia deve ser um exercício de desintoxicação das tensões e cobranças. Pelo pouco que vi “Os Amantes Passageiros” tem um quê nonsense ao estilo “Mulheres a Beira de Um Ataque de Nervos” (1988), espero que também tenha a mesma qualidade.

Independente de genial ou não, raramente Almodóvar consegue me decepcionar, portanto, prontamente estarei na sala de cinema aguardando ansiosamente mais uma produção da El Deseo. Abaixo o trailer de “Os Amantes Passageiros” que deve chegar aos cinemas brasileiros em setembro.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.