Oscar 2020: A construção estilística da atuação de Joaquin Phoenix em Coringa

Continuando a análise dos indicados ao Oscar 2020 na categoria de Melhor Diretor, depois do sul coreano Bong Joon-Ho e o seu Parasite, chegou a vez do filme com mais indicações desde ano, 11 ao total, estamos falando de Coringa. Embora tenha gerado muita polêmica em seu lançamento, dividido opiniões, algo que todos pareciam concordar era o brilhantismo da atuação de Joaquin Phoenix. Mas como ele chegou a esse ponto de sofisticação? Mágica? Segredos obscuros da sétima arte? Creio que não. Aqui iremos falar da construção do personagem Arthur Fleck, mas focando nas estratégias utilizadas pelo diretor e roteirista Todd Phillips, que valorizaram a performance do ator. Spoilers são a especialidade da casa.

O primeiro padrão a destacar é que o personagem Arthur está em todas as cenas do filme, inclusive nas que não deveria estar, o personagem se imagina nelas. Tal padrão vai criar um efeito no público, nós só temos acesso a informações que Arthur tem, vemos tudo pelo seu ponto de vista, é o que é chamado de narração restrita, o outro tipo seria a irrestrita onde o público tem mais informações que os personagens (Parasite faz uma excelente combinação de ambos).

Com base nos padrões encontrados no filme, devemos nos perguntar os propósitos do diretor, por consequência, quais os efeitos no público obtidos, já apontamos um.  Aqui o diretor quer que percebamos o mundo, Gotham City, pelo ponto de vista de Fleck, mas como é mostrado pelo filme, os problemas mentais e a revelação da relação imaginária com a vizinha, não podemos acreditar em tudo o que Arthur vê, tornando-o um narrador não confiável. Não entraremos na análise do que é real ou não na narrativa, o simples fato de o público se questionar já é um efeito criado pelo diretor, que molda a experiência do público de Coringa

Mas muito tempo de tela não garante uma grande atuação. Além do fato de Fleck estar em todas as cenas, elas tendem a começar enquadrando ele, mesmo antes de algum plano que estabeleça geograficamente a cena. Analisaremos nesse texto o primeiro encontro no enredo entre Arthur e a assistente social. Como dito, a cena começa com Arthur, um longo close-up (FIG.1), onde ele está tendo a crise de riso característica do personagem, embora nesse ponto ainda não tenhamos ciência de tal, e nessa cena não será explicada. Tal decisão narrativa está em sincronia com o padrão estilístico do filme citado acima. Primeiro Arthur, depois o resto. O plano longo é uma técnica para amplificar a atuação de Phoenix assim como tem efeito expressivo, de imersão no mundo dele. 

Figura 1 – Longo close up imersivo de Arthur

O segundo plano ainda é de Arthur, só que dessa vez vemos o espaço a sua volta, muita papelada em prateleiras, mas ainda não há outra presença humana (FIG.2), apenas no terceiro plano vemos uma segunda personagem, a assistente social, a silhueta de Arthur num OTS (plano sobre o ombro) bem próximo da câmera a localiza na sala (FIG.3). Então, voltamos para Arthur no mesmo enquadramento do primeiro plano, ele finalmente conseguiu controlar a risada, novamente Philips mantém a câmera nele, mesmo no silêncio, até ele proferir a primeira fala da cena.

Voltamos para a assistente, estabelecendo um campo/contra campo, neste momento a trilha bem atmosférica começa a tocar, outra ferramenta para construir a experiência do filme. Enquanto ela fala, corta para Arthur escutando-a, outro padrão do filme, que além de colocar ele em todas as cenas, nos mostra ele reagindo ao mundo a sua volta. Temos então o primeiro plano geral da sala, mostrando pilhas e pilhas de documentos, problemas de Gotham que nunca serão resolvidos (FIG.4). Vale pontuar que, estranhamente, das 11 indicações, nenhuma foi pra direção de arte, que, assim como a trilha, é  ferramenta extremamente expressiva para o filme. 

Figura 2 – Arthur cercado pela papelada, ainda não sabemos a total da cena
Figura 3 – A segunda personagem é finalmente revelada
Figura 4 – Primeiro plano geral da cena, o incrível cenário adiciona camadas a história

Em seguida, a câmera se fixa em Arthur novamente enquanto ele a escuta, aqui a assistente pergunta sobre o diário que ele devia trazer, Arthur baixa o olhar, pensa, fuma, sorri e depois levanta o olhar novamente, tais sutilezas do ator só são possíveis pelo tempo que Todd se fixa nele, planos longos com câmera fixa são raros na Hollywood atual, como apontei no texto anterior sobre Parasita. Outro padrão recorrente pelo decorrer da cena (e do filme)  é que sempre a fala só vem um pouco depois que algum personagem é enquadrado, principalmente no caso de Arthur, dando tempo do público observar as feições e entrar no clima depressivo do filme, somos forçados a encarar as dores internas (e externas) de Arthur e Gotham City. Partindo dessa ideia, desse efeito que Philips quer atingir, vamos a outra cena.

Arthur é chamado ao escritório do chefe por causa do incidente da placa. O chefe não acredita que ele foi atacado e a placa destruída e o cobra por ela, no final da cena a câmera permanece em Arthur e vai em direção a ele (push in) enquanto ele segura um sorriso falso, a trilha se intensifica enquanto a reclamação do chefe vai desaparecendo, agora estamos dentro da cabeça de Arthur, e somos forçados novamente pelo diretor a entrar na dor do personagem (FIG.5).

Figura 5 – Push in direto para a mente de Fleck

Já percorremos os quatro aspectos do estilo fílmico, mostrando as técnicas de Todd Phillips para construir a performance de Joaquim. Destacamos padrões da montagem (como as cenas sempre iniciam com Arthur e o tempo que dá aos atores antes das falas) , da cinematografia (o plano longo e o push in da câmera) da mise-en-scene ( as sutilezas da atuação de Phoenix e a direção de arte) e do Som (o uso de trilha e o fade out dos sons ao redor). Além dos aspectos narrativos que contribuem para essa construção.

Em apenas uma cena de diálogo podemos destacar várias qualidades do trabalho de Todd Phillips, num nível de detalhe de cada plano que ele leva pelo filme inteiro, recebendo a merecida indicação a melhor diretor no Oscar. Não creio que irá ganhar, mas qualquer um dos cinco indicados merece a estatueta, foi um grande ano para o cinema e uma ótima seleção para o Oscar de Melhor Diretor. Em breve, análises dos outros três indicados faltantes: Scorsese, Tarantino e Mendes.


por Jonathan DeAssis

Instagram: @deassisjonathan