A Década no Oscar – Parte II : A construção da beleza fantástica

Bem-vindo à segunda parte da série de textos sobre o Oscar da última década (2011-2020). No primeiro texto relacionei os vencedores da categoria de melhor direção com as demais categorias e diversos padrões surgiram, aqui iremos discorrer sobre alguns deles, sobre aqueles que envolvem a beleza visual de um filme. E o primeiro padrão é a respeito da categoria de melhor fotografia, que se revelou a mais interligada a direção.

Primeiro é necessário listar os dez vencedores de melhor fotografia. Antes, algumas informações: nesta última década apenas Parasita venceu em melhor direção sem ter sido indicado a melhor fotografia, e em seis oportunidades o mesmo filme levou ambos os prêmios para casa, foram eles: As Aventuras de Pi, Gravidade, Birdman, O Regresso, La La Land e Roma. Os demais vencedores em fotografia foram A Origem, Hugo, Blade Runner 2049 e 1917.

Todavia, para falar da fotografia desses filmes é necessário antes falar do que está dentro do plano, o que está de fato sendo filmado (mise-en-scène), e há um padrão aqui, o qual chamarei de elementos fantásticos, não necessariamente ligado ao gênero fantasia. Um garoto e um tigre em um barco à deriva, astronautas perdidos no espaço, um inferno de gelo no território selvagem do Velho Oeste, a exuberância colorida de um musical na terra do cinema, sonhos dentro de sonhos que quebram qualquer lei da física, uma fantástica estação de trem que abriga segredos da sétima arte, uma Los Angeles cyberpunk num futuro próximo, a destruição em um cenário de guerra. Essas são descrições de oito vencedores de melhor fotografia, excluí apenas Birdman e Roma, que têm a sua própria beleza, voltaremos a eles.

O fato é esses filmes vão a lugares que nós jamais poderíamos ir, é a pura magia do cinema, isso me leva a outra categoria, que sem ela, tal magia não poderia existir, estou falando do design de produção (direção de arte no Brasil). Entre todos os vencedores de direção e fotografia, apenas Birdman não teve indicação em design de produção. Isso revela a importância desse aspecto do estilo cinematográfico, que cria tão belos mundos. Os cenários têm uma função bem mais importante no cinema do que no teatro, podendo ir para o primeiro plano, sem a necessidade de atores, tendo um papel de aumentar o efeito dramático, o que seria dos filmes que estamos trabalhando sem eles? Boa parte da sua narrativa e conflitos, clima e apelo visual  surgem do ambiente em que eles se passam, seja o espaço ou o alto mar.

Os cenários de um filme podem ser totalmente construídos em sets de filmagem ou lugares reais podem ser usados, é o que se chama de locações. A procura dessa locações é um processo muito importante da produção fílmica, encontrar o local certo para determinada cena, e modificá-lo para atingir o efeito necessário. Embora não pareça, La La Land foi filmado praticamente todo em locações, a ideia do diretor Damien Chazelle era transformar lugares reais em irreais, e as coreografias podiam mudar a depender do local escolhido. O casal Wasco foi responsável pela direção de arte de La La Land, vencendo o Oscar com justiça, eles também trabalharam em diversos filmes de Quentin Tarantino e Wes Anderson.

Até mesmo os filmes  sem os elementos fantásticos da lista fazem dos seus cenários uma forte ferramenta narrativa e expressiva. Roma tem uma detalhada reconstituição de época a partir das memórias de Cuarón (veja o documentário Camino a Roma), tornando cada ambiente um personagem, até o carro (estes seriam os props, objetos de cena), já Birdman possui sim alguns elementos de fantasia, mas toda a sua narrativa se dá entre os palcos e corredores da Broadway, os encontros que eles causam, e é claro, as ruas de Nova York.

Pontuado a importância da direção de arte na construção desses filmes, e por consequência na beleza da fotografia – é um clichê relacionar fotografia apenas à beleza, mas aqui é um fato, vários desses filmes estão entre os mais belos feitos na década – não temos a mesma dobradinha de vencedores como em fotografia, apenas dois filmes venceram direção e design de produção, A Forma da Água e La La Land. Os outros vencedores de direção de arte foram Alice no País das Maravilhas, Hugo, Lincoln, O Grande Gatsby, O Grande Hotel Budapeste, Mad Max: Estrada da Fúria, Pantera Negra e Era uma vez em  Hollywood. E desses, somente A Forma da Água levou melhor filme, e apenas La La Land venceu os três Oscars (direção, fotografia e direção de arte), será que é o filme mais belo da década? Comentários num próximo texto dessa série…

No quesito fábrica dos sonhos de Hollywood, também devemos dar os créditos aos efeitos especiais, sem eles, muitos desses filmes não seriam possíveis, e atuam juntamente com a fotografia e a direção de arte na construção dessas belezas visuais. Seis filmes nessa década fizeram a dobradinha fotografia e efeitos especiais: A Origem, Hugo, As Aventuras de Pi, Gravidade, Blade Runner 2049, 1917. O Regresso também foi indicado em efeitos, mas não saiu com a vitória. Apenas três vencedores de fotografia não tiveram indicação aqui: Birdman, La La Land e Roma.  O uso extensivo de efeitos especiais entre os vencedores de fotografia reforça a questão fantástica deles. Mas ainda não temos muitos vencedores de efeitos especiais que também levaram direção para casa, apenas dois filmes nesta última década venceram ambas categorias de direção e efeitos: As Aventuras de Pi e Gravidade.

Voltando a direção de arte, sinto que a Academia usa a categoria de design de produção como um prêmio de consolação, e não como algo diretamente ligado ao trabalho do diretor, quem fica com a glória é a fotografia, então voltemos a ela. Qual padrão emerge dos vencedores de melhor fotografia?  O plano longo e o plano-sequência se destacam. Os seguintes filmes os usam como umas das suas principais ferramentas estilisticas: Gravidade, Birdman, O Regresso, La La Land, Roma e 1917, sendo apenas esse último o que não venceu direção, embora fosse o favorito.

Antes de falar sobre os planos longos, é preciso falar da mobilidade do quadro. Diversas características do plano fílmico estão presentes também na pintura, fotografia e nas histórias em quadrinhos, todavia um recurso é exclusivo do cinema, o quadro pode se mover em relação ao material enquadrado. Os movimentos de câmera são usados pelos cineastas desde os primórdios e cativam o público desde então. São eles que aumentam o volume de informação a respeito do espaço, tornam os objetos mais nítidos e vívidos, e podem revelar novos objetos ou figuras. 

Numa função mais comum, o movimento de câmera  serve para um reenquadramento, quando um ator se move pelo cenário, mas a câmera pode também se deslocar para seguir os atores, como é o caso de Birdman, um dos padrões mais recorrentes do filme e usado habilidosamente por Iñárittu. Mas a câmera pode se mover de forma independente dos atores ou objetos, afastando-se para revelar algo importante. Seja motivado ou não por algum ator ou objeto, o movimento de câmera afeta profundamente a maneira como percebemos o espaço dentro e fora de campo. Cinema é uma arte do espaço, como já destacamos a importância das elaboração dos cenários para efeito dramático.

Além de arte do espaço, o cinema também é arte do tempo, estamos quase chegando no plano longo. O movimento de câmera consome tempo na tela, pode ser muito ou pouco, mas cria um arco de expectativa e satisfação. Em La La Land temos rápidos movimentos de câmera, como na cena no clube onde Sebastian toca e Mia dança, rápidos pan’s os conectam, também temos lentos e imersivos  track in’s, como na cena onde Sebastian irritado de tocar aquelas músicas de Natal começa a tocar jazz de forma mais apaixonada, a câmera começa em seu rosto, passa por suas costas, permanece um pouco em suas mãos tocando, depois volta para seu rosto, num segundo plano longo logo em seguida, temos um plano geral dele tocando e a câmera vai lentamente em direção a ele, a iluminação do local muda, apenas um holofote nele,  entramos no mundo do Sebastian, depois voltamos à iluminação normal. O diretor Chazelle através do tempo do plano lhe dá a devida importância e também o efeito no público, sendo que se tratava do ponto de vista de Mia. A duração e velocidade do plano podem controlar significativamente a nossa percepção.

No exemplo de La La Land já entramos no plano longo, e o que enfatizei no plano? Elementos da mise-en-scène, o plano longo coloca mais ênfase na interpretação, no cenário, na iluminação e em outros fatores, não faltaram exemplos em La La Land. A audição final de Mia filmada num único plano eleva a atuação da Emma Stone à perfeição, vencendo com justiça a categoria de melhor atriz. Sem dúvidas o desespero de Ryan (Sandra Bullock) em Gravidade é ampliado pelo uso do plano longo, e também todos os atores e atrizes de Birdman, e tivemos finalmente o aguardado oscar de melhor ator para Leonardo DiCaprio por O Regresso, e o plano longo tava lá, coincidência? 

O plano longo cria seu próprio padrão de desenvolvimento (início, meio e fim), sem os cortes, podemos notar as mudanças acontecendo, e vamos emergindo nele, a fotografia de planos longos serve a mise-en-scène, atuando em sincronia com a direção de arte, figurino, efeitos e encenação, assim atingindo a beleza extraordinária desses filmes. Embora muitas vezes o plano longo seja criticado como um exibicionismo técnico, como podemos ver não é o caso, pois impulsiona diversos aspectos de um filme.

No próximo texto desta série irei fazer análise fílmica de alguns desses filmes que fazem uso dessa importante ferramenta estilística. Para finalizar, deixo a seguinte citação de Steven Spielberg:


Eu adoraria ver os diretores começarem a confiar nos espectadores enquanto montadores do filme, como às vezes acontece com uma peça de teatro, quando o público seleciona para quem olhar enquanto a cena se desenrola… Há tantos cortes  tantos primeiros planos sendo filmados hoje, creio que por influência direta da televisão.