A Vila e os planos longos de M Night Shyamalan

O plano é unidade mínima do filme. É a interseção entre dois cortes. Planos criam cenas, que criam sequências, que criam atos, que, por fim, criam filmes. Filmes estes que podem fazer parte de algo maior, como uma franquia. Mas tudo começa no plano. É preciso reconhecer o valor de um único plano.

Scorsese coloca em sua masterclass que o plano pode parar onde você não planejou. Na edição, ele pode ser colocado em qualquer lugar. Isso  aumenta o valor dele, seu poder próprio. Planos podem durar menos que um segundo ou mais que uma  hora. A duração do plano é uma decisão feita pelo diretor, uma decisão fotográfica. Mas é claro que, para qualquer plano, uma construção da mise-en-scéne é necessária para que ele seja curto ou longo. E, ao mesmo tempo, uma decisão de montagem: cortar agora ou depois? Um plano construído para ser longo pode ser diminuído na edição. 

Aqui iremos nos concentrar na construção de planos longos, e para isso usaremos o diretor M Night Shyamalan como nosso estudo de caso. Shyamalan usou de forma consistente o plano longo como uma de suas principais ferramentas ao longo de toda a carreira. Podemos dizer que ele tenta construir um arco distinto para o plano. Ou seja, os planos nos filmes do Shyamalan possuem um início, um meio e fim. Há um desenvolvimento do plano.

ASL (Average Shot Length)

Antes de me adentrar no trabalho de Shyamalan,  eu gostaria de introduzir um conceito, a ASL (Average Shot Length), ou seja, a duração média de um plano em um filme. O resultado é obtido através da divisão da duração do filme em segundos pelo número de planos totais dele. A ASL só tem caído no decorrer das décadas, os planos estão cada vez mais curtos. Se nos anos 40 a média era de 10 segundos por plano, no final dos anos 90 a média era menos de 5 segundos. Nos anos 2000, temos exemplos de filmes com ASL abaixo dos 2 segundos, como, por exemplo, Moulin Rogue!, com ASL de 1,9 segundos. 

Shyamalan passa longe dessa estatística, mantendo a sua ASL numa média altíssima, vamos aos números. Sexto Sentido (1999) tem ASL de 8,58s; Corpo Fechado (2000) tem ASL de 16,91s; Sinais (2002) ASL de 10,08s; A Vila (2004) ASL 15,61s; A Dama na Água (2006) ASL 12,64s; Fim dos Tempos (2008) ASL 6,77. Sem dúvida um cineasta que não se adequa ao sistema e mantém uma voz autoral. Paul Thomas Anderson é outra cineasta que usa de forma consistente o plano longo em toda a sua carreira, mantendo uma ASL altíssima, acima de 10s em  todos os seus filmes, Embriagados de Amor tem a mais alta ASL, incríveis 17,99s.

Para efeito de comparação, vamos olhar os números de outro cineasta contemporâneo ao M Night, o oscarizado Guillermo Del Toro. Cronos (1992) ASL de 8,9s; Mimic (1997) ASL 3,6s; A Espinha do Diabo ( 2001) ASL de 7,2s; Blade 2 (2002) ASL de 2,35s; Hellboy (2004) ASL de 2,77s; O Labirinto do Fauno (2006) ASL de 5,86s; Hellboy 2: O exército dourado (2008)ASL de 3,67s. 

A diferença de estilo entre os dois cineastas é gritante. Podemos notar que o Del Toro está mais de acordo com as práticas do seu tempo, ou seja, reproduz o estilo dominante. Podemos dizer que Shyamalan é um cineasta superior apenas por esses números? Claro que não. Mas deixarei aqui algumas questões, não necessariamente relacionadas ao trabalho do Del Toro, mas sim a filmes com uma ASL baixa de forma geral. 

Podemos começar a ensaiar que um cineasta que reproduz o estilo dominante não o confronta, não está tentando novas coisas em termos de forma. Uma ASL baixa geralmente pode revelar que os planos são construídos com pouca informação, feitos para o corte rápido,  normalmente muitos close-ups, geralmente muita cobertura  feita durante a filmagem, ou seja, a ação é filmada com múltiplas câmeras e com os máximo de ângulos possíveis, para que a cena seja construída na edição, não existe um design específico para cada plano. Isso significa que ele está deixando de explorar outras possibilidades da linguagem cinematográfica. E este é o estilo dominante atualmente, que começou a se consolidar pós-1960. 

Novamente alerto que filmes com a ASL baixa podem ser incríveis. Os filmes do David Fincher todos possuem uma baixa ASL e ele se destaca como um dos melhores diretores de sua geração. Mas as observações feitas são válidas para guiar o olhar do leitor quando for assistir algum filme. Como o diretor trabalha seus planos? Qual a importância de cada um? Há um excesso de close-ups? Para mais questões sobre o tema veja o meu texto sobre Parasita, onde confronto o filme com o estilo dominante de Hollywood. 

Mas será que para sobreviver em Hollywood não é necessário se adequar ao sistema? Várias questões práticas de produção de Hollywood influenciam os estilos dos cineastas. Mas em defesa de um estilo fora dessa condição, coloco que os filmes juntos do Shyamalan como diretor fizeram quase três vezes mais dinheiro ($ 3,016,858,757) que os filmes dirigidos pelo Del Toro ($1,210,219,398). Então, há luz no fim do túnel. 

Shyamalan pensa seus planos

Voltemos ao M Night e para exemplificar o seu uso de planos longos usaremos exemplos de A Vila (2004) e em um segundo texto sobre o diretor iremos falar sobre A Dama na Água (2006). Ambos filmes foram atacados pela crítica na época, resultando em notas baixíssimas, totalmente incondizentes com a qualidade de ambas obras. Mas ainda bem que temos os franceses. Terra de Godard e do Melville. Tanto A Vila como A Dama na Água entraram no Top 10 da Cahier Du Cinema em seus respectivos anos. Fragmentado (2016) também entrou na lista da revista francesa, mas a recepção pela crítica foi até amistosa. 

No início de A Vila é estabelecido um padrão de como a informação será revelada. Normalmente nos é mostrado o comum, o ordinário da vida simples na vila, então temos uma reação a algo fora do plano, só então esse algo nos é revelado. Duas moças brincam enquanto varrem, elas param, a câmera se movimenta para nos revelar o motivo, uma flor vermelha, elas a arrancam e correm para a enterrar depois voltam a seus afazeres, tudo num único plano. A cor vermelha será um motive ao decorrer do filme. Outro exemplo, vemos uma riacho, logo em seguida um capuz vermelho é refletido na água. Novamente a cor vermelha, o filme lentamente nos alerta da sua importância e possível perigo. 

Num plano distante um grupo de crianças se amontoam para ver algo no chão, ainda não sabemos o que é. Um dos adultos se aproxima para ver, após algum questionamento, através de um corte nos é revelado o que lhes trazida atenção, o corpo de algum filhote de animal esfolado. Noutro momento, um grupo de mulheres param o que estão fazendo e encaram algo fora do plano, então a câmera recua e nos revela outro filhote morto. 

Shyamalan está colocando o seu público numa posição específica, controlando cada detalhe da experiência. Ele cria uma expectativa no público através do plano longo, sempre colocando uma pergunta antes, o que causou aquela reação? A resposta gera na verdade mais perguntas no público, assim como os próprios personagens estão com as mesma perguntas. O clima de mistério é para todos. E ele usa o tempo do plano para nos colocar no tempo daqueles personagens, da vida pacata da vila, nos mostrando pela longa duração a importância daquilo que está acontecendo para eles. Uma maneira de fazer o público se importar com o mistério é fazer os personagens se importarem. E esse é inclusive um dos temas do filme.

Shyamalan não usa apenas o plano longo como única ferramenta da cena, ele consegue criar momentos intensos de montagem alternada com eles. Tais momentos ficam mais intensos pois não são a normalidade do filme em questão. É como um barulho num ambiente silencioso, é ampliado pela atmosfera criada. A cena seguinte é construída a partir de três ações simultâneas. 

As criaturas estão atacando a vila, o toque de recolher foi dado. Primeiro Lucius (Joaquin Phoenix) está ajudando os moradores e fechando as portas, então corre e se esconde atrás de uma casa no primeiro plano. Através da combinação de mise-en-scene e enquadramento, Shyamalan deixa o lado esquerdo do plano vazio para que posso revelar ao fundo a criatura. Ivy (Bryce Dallas Howard) se recusa a entrar no porão para se esconder como outros personagens o fazem e fica na porta a espera de Lucius. 

Toda tensão será finalizada num incrível plano longo. Temos a mão de Ivy no primeiro plano, ao fundo fora de foco a criatura se aproxima. No meu texto sobre fotografia comentei sobre o uso de lentes, aqui Shyamalan usa o desfoque provocado pela teleobjetiva como um dos efeitos principais da cena. Mesmo sem vermos direito a criatura ela nos causa tensão,a lente nos dá quase uma forma  abstrata que não podemos compreender totalmente. Medo do desconhecido. O som desempenha um papel crucial aqui também. Escutamos os suspiros de medo dela e os rosnados da criatura. A criatura continua a se aproximar, quando está quase a atacar ela, a mão de Lucius surge e agarra Ivy e a leva para dentro da casa e fecha a porta. Neste momento Shyamalan adiciona a trilha sonora e coloca a ação em câmera lenta. A câmera lente surge como recompensa para o público pela tensão e coragem dos personagens, um momento revelador para o desenvolvimento dos personagens. Somente em situações de decisão difícil que os verdadeiros personagens surgem, se revelam.

Pudemos destacar alguns padrões estilísticos do Shyamalan, de como o diretor usa o plano longo para articular a informação dada ao público para gerar um efeito neste. Ele exerce um controle sobre o espaço e tempo através da utilização da técnica do plano longo. Irei falar mais sobre o controle do espaço e do tempo em texto futuro através do cinema de Hou Hsiao Hsien, assim como na segunda parte da análise do Shyamalan com A Dama na Água. Mais sobre os planos longos também podem ser encontrados nos meus textos aqui e aqui

Em resumo, foi possível destacar que os princípios que regem as decisões de Shyamalan não são os dominantes do cinema americano atual, ou seja, busca uma originalidade, que ele entende a importância de cada plano, usa a sua duração (a técnica) para gerar um efeito no público, mantém uma unidade no filme e sabe quando a quebrar, e usa todos esses elementos de forma complexa, lentamente constrói a experiência do público, não simplesmente joga algo na cara do espectador e quer ser aplaudido por isso.