Allan Jonnes, o poeta nordestino que explode o mundo

Imagine um cara de 23 anos que, além de cumprir suas obrigações como estudante de Jornalismo, é poeta. Agora aperte bem os olhos: ele mora em Aracaju, em Sergipe, e não tem nenhum livro publicado ainda, embora faça parte de muitos movimentos ligados à disseminação e estudo da poesia. O homem em sua mente saiu do Nordeste e foi à São Paulo, em 2013, e conquistou não só o público local como ficou conhecido em boa parte do Brasil depois disso.

Se você acha que isso é impossível, é porque ainda não conhece Allan Jonnes. Campeão do ZAP SLAM,  campeão 2013 do SLAM da Guilhermina e o 2° colocado no SLAM SP (que reuniu os poetas vencedores dos principais slams de São Paulo numa fervorosa  e acirradíssima competição), Allan também participou da Balada literária (SP), Pré-balada Recife e Bienal do Livro em Pernambuco, Sarau no AR (SP), Sarau Bem Black (BA), e é membro do Coletivo Sarau Debaixo, em Aracaju.

manu costa

Conversei um pouco com Allan sobre essa experiência maravilhosa de vida, conquista, e, sobretudo, poesia. O que será que vem por aí?

 O CHAPLIN: Allan, como você começou a escrever?

Eu comecei a escrever na escola ainda, naqueles concursos literários para crianças. A primeira coisa que eu escrevi foi um continho de terror, o personagem era uma mistura de todos os bichos que eu tinha medo, um pouco lobisomem, um pouco big loira, dentes de vampiro, com o saco do velho do saco e o chifre do Vingador da Caverna do Dragão. Mas o meu primeiro contato com a literatura foi anterior a isso, eram quadrinhas populares que o meu avô cantava quando eu era ainda mais novo, eu achava muito engraçado e acabava decorando, a que eu mais gostava era “Rio fundo, Tapera, São Cristóvão e Laranjeiras/ eu vi a velha que mijou lá na ladeira/ encheu o Vaza Barris e o riacho da ribeira/ cinco usinas se afundou e a velha passou dizendo que hoje ainda não mijou” eu ria muito, meu primeiro contato com a poesia foi isso, uma velha mijando numa ladeira. Apesar de ainda criança ter tido esse tipo relação com a literatura (oral), só depois de muito tempo é que eu fui escrever de fato alguma coisa, e eram coisas muito ruins, minha sorte é que ninguém pediu pra que eu desistisse. Quando eu tinha lá pros 16 anos eu criei minha primeira pasta no Desktop pra ir salvando os poemas, aí foi o marco-zero oficial disso que eu posso chamar de minha produção literária.

1459139_685789528121210_1457433635_nO CHAPLIN: Fiquei sabendo que você ajuda a organizar um sarau massa em Aracaju. Como é isso, como acontece?

Na verdade, o sarau é organizado por um coletivo do qual eu também faço parte, é o Coletivo Sarau Debaixo. O sarau acontece todas as terceiras terças-feiras do mês debaixo de um viaduto aqui de Aracaju. O fato de ser um coletivo faz com que a gente se reúna também pra discutir muitas outras coisas além do sarau, a gente também desenvolve algumas outras atividades de intervenção na cidade. Já tá rolando um caixote biblioteca, a gente recolhe livros no dia do sarau pra distribuir nas regiões mais afastadas do centro, a edição de um zine chamado “Circular Poesia”, com poemas da galera que vai no sarau, recita, e a gente vai publicando nas edições posteriores. Tem também roda de rima, tem música, tem grafite, tem o que a pessoa quiser, inclusive poesia, e o pessoal intervém de maneira muito espontânea, a ideia é ocupar e resignificar o espaço urbano mesmo, as pessoas precisam começar a compreender que a rua também é lugar de fazer as coisas.

O CHAPLIN: Você já falou uma vez que gosta muito mais de fazer poesia oralmente do que de escrevê-la no papel. Como acontece seu processo de criação e composição literária?

É verdade, embora eu tenha também me esforçado para experimentar a disposição das palavras e dos versos no papel. Naturalmente, quando eu estou naquele processo de corte e reparo das poesias, o ouvido meio que vai dando a linha; o ouvido sempre foi um fiel escudeiro: é impossível abrir mão de um bom ritmo, então nisso eu procuro ser mais cuidadoso.

O CHAPLIN: Como rolou  o convite pra participar da Balada Literária?

Allan Jonnes na Balada Literária 2013 | foto: Mario Miranda Filho

Em 2012, o Marcelino Freire veio aqui em Aracaju para ministrar uma oficina de Dramaturgia e me convidou pra participar de uma edição especial do ZAP! SLAM, que aconteceu dentro da Balada Literária daquele ano. Em 2013, ele me convidou mais uma vez para participar de outra edição especial do ZAP! com poetas de outras cidades do Brasil. O vencedor dessa edição voltaria no fim do ano para ser dirigido pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos em uma performance que seria apresentada na Balada Literária daquele ano, aí eu tive a felicidade de ganhar a competição e voltei lá.

O CHAPLIN: Você saiu de Aracaju e foi pra São Paulo. A temida cidade-grande, cidade gigante. Você chegou lá, todo-todo, e ganhou um  monte de slam, brilhou muito e tudo o mais. Como foi essa experiência? 

A experiência em São Paulo foi incrível, poder passar um tempo trocando ideia com essa galera, poder dar uma passeada pelos saraus e pelos SLAMs, conhecer um pouco do circuito, conversar com quem tá fazendo a poesia que sai do livro, essa poesia que tá ali em pé na nossa frente, poder também ser dirigido numa performance por um grupo como o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, poder dizer poesia pra tanta gente e em lugares tão distintos, seja dentro de um bar ou de uma biblioteca, foi uma das melhores coisas que eu sei que poderiam me acontecer nesse momento, principalmente numa fase que eu ainda considero inicial da minha produção, agora eu voltei e posso dar continuidade às ações do coletivo que eu ajudo a tocar, pra que essas coisas também aconteçam aqui na cidade onde eu moro, e isso é imprescindível, é a outra parte do processo. A experiência com o sarau daqui se equivale em importância com a experiência que eu adquiro andando por aí – são duas coisas elementares e indivisíveis.

Allan Jonnes, em sua última ida à São Paulo (2013), participou de diversos slams e conquistou bastante o público e o júri
Allan Jonnes, em sua última ida à São Paulo (2013), participou de diversos slams e conquistou bastante o público e o júri

O CHAPLIN:  Você adora poesia oral, né?! E vive fazendo performances com textos autorais! Como você se prepara pra essas apresentações? Existe algum tipo de estudo, exercício que ajude?

Talvez a minha experiência com o teatro tenha me ajudado um pouco nesse processo, mas sem dúvida nenhuma são as técnicas do Clown as que eu mais utilizo, tanto no que diz respeito ao tempo/ritmo, quanto principalmente a relação com as pessoas, o jogo que se estabelece com quem tá assistindo.

 O CHAPLIN:   Você pensa em publicar um livro de poesia? Já existe algum convite pra publicar em antologia, por exemplo?

Penso sim em publicar um livro, sei da importância disso e espero que seja em breve. Esses dias fui convidado para uma antologia organizada pelo poeta mineiro Bruno Brum, o projeto se chama Leve1Livro, onde em cada edição eles distribuem em Minas Gerais uma seleção de poemas de dois poetas contemporâneos do Brasil. Achei esse projeto interessantíssimo, vale a pena demais a galera conhecer, eu fiquei muito feliz com o convite.

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